Joseph Beuys nasceu em 1921 na cidade de Krefeld, nesse mesmo ano muda-se com a família para a cidade de Kleve perto da fronteira com a Holanda. Beuys viria aqui a completar o ensino básico, primário e acabaria o secundário em 1941. Os seus professores consideravam que Beuys tinha algum jeito para o desenho. No entanto o seu interesse, que adquiriu desde cedo, por ciências naturais faz com que Beuys quisesse seguir medicina. No entanto após ter visto esculturas de Wilhelm Lehmbruck viria mudar a sua escolha de medicina para escultura. Beuys também sempre teve um grande interesse pela mitologia nórdica e os seus contos que viriam a influenciar a sua arte.
Em 1936, Beuys entra para a ‘Juventude Hitlerista’ ou ‘Juventude Hitleriana’ e acaba por participar no ‘Comicio de Nuremberga’ com quinze anos.
Joseph Beuys entra para a ‘Luftwaffe’ em 1941. Começa o seu percurso militar como um controlador de rádio de aviões. Heinz Sielmann foi o seu tutor, este treinou a controlar os rádios, no entanto também ensinou Beuys sobre Biologia e Zoologia. É nesta altura que Beuys começa também a ponderar seguir uma carreira artística. Em 1942 Beuys é colocado na Crimeia onde combateu em vários combates. É na Crimeia, a Março de 1944 que Beuys viria a sofrer um desastre de avião que viria a motivar o seu interesse por gordura de animal e feltro, entre o natural e o fabricado. Beuys disse sobre o desastre:
“Had it not been for the Tartars I would not be alive today. They were the nomads of the Crimea, in what was then no man's land between the Russian and German fronts, and favoured neither side. I had already struck up a good relationship with them, and often wandered off to sit with them. 'Du nix njemcky' they would say, 'du Tartar,' and try to persuade me to join their clan. Their nomadic ways attracted me of course, although by that time their movements had been restricted. Yet, it was they who discovered me in the snow after the crash, when the German search parties had given up. I was still unconscious then and only came round completely after twelve days or so, and by then I was back in a German field hospital. So the memories I have of that time are images that penetrated my consciousness. The last thing I remember was that it was too late to jump, too late for the parachutes to open. That must have been a couple of seconds before hitting the ground. Luckily I was not strapped in – I always preferred free movement to safety belts… My friend was strapped in and he was atomized on impact – there was almost nothing to be found of him afterwards. But I must have shot through the windscreen as it flew back at the same speed as the plane hit the ground and that saved me, though I had bad skull and jaw injuries. Then the tail flipped over and I was completely buried in the snow. That's how the Tartars found me days later. I remember voices saying 'Voda' (Water), then the felt of their tents, and the dense pungent smell of cheese, fat and milk. They covered my body in fat to help it regenerate warmth, and wrapped it in felt as an insulator to keep warmth in”
No entanto este acontecimento nao é possivel de dizer se é verdade ou não, visto nos relatórios militares nazis a patrulha de resgate que o encontrou disse que Beuys se encontrava em choque e que não haviam tartaros na vila. De qualquer maneira, o público em geral sempre aceitou esta história fascinante como a origem da identidade artística de Beuys.
Após o fim da segunda grande guerra, Beuys volta para Kleve onde conhece o escultor Walter Brüx e o pintor Hans Lamers. Joseph junta-se à Kleve Artists Association que havia sido criada por Brüx e Lamers. Em 1946, Beuys entra para o curso de Escultura da Academia de Düsseldorf de Belas Artes. Começou por ter Joseph Enseling como professor, mas após três semestres muda-se para a aula de Ewald Mataré.
Em 1947, juntamente com Hann Trier e outros, cria o grupo 'Donnerstag-Gesellschaft' ou ‘Grupo da Quinta-Feira’. Organizavam discussões, exposições, eventos e concertos entre 1947 e 1950 no Alfter Castle.
Em 1951, Mataré aceita Beuys para a sua aula de mestrado. Joseph viria a concluir a sua educação em 1953 com 32 anos de idade.
O trabalho de Beuys consistia em pinturas, esculturas, desenhos, instalações, performances, contribuições para a teoria artística e ensino, e atividades sociais e politicas. Se bem que o trabalho de Beuys ficou mais marcado pelas suas esculturas a que ele viria a chamar de ‘social sculptures’ que tinham como objetivo curar, transformar a sociedade. E pelas suas performances às quais ele chamava de ‘Aktions’, ‘ações’. A partir de certa altura Beuys acaba por adquirir e representar através do seu trabalho e vida pessoal a função de um ‘shaman’
Entre 1956 e 1957, Joseph Beuys cria uma obra ‘Woman/Animal Skull’. É uma das obras que Beuys cria no inicio da sua fase experimental. Esta obra consistia na criação de milhares de desenhos feitos sob a influencia de um regime imposto por si próprio de asceticismo estético. Beuys trabalhava na solidão, como se estivesse à procura de esclarecimento de si próprio, de ‘iluminação’, em que tentava conjugar o espiritual e o físico, o sólido e o liquido, o efémero e o permanente. ‘Woman/Animal Skull’ sugere a fusão do racional e do instintivo, da humana e da animal.
Joseph Beuys foi nomeado como professor de escultura na ‘Kunstakademie Düsseldorf’ em 1961. Em 1962 conhece Nam June Paik um membro do movimento Fluxus a que Beuys também viria a pertencer. A primeira performance ou ‘Aktion’ genuina que Beuys faz foi em 1964, esta tinha como titulo ‘Lebenslauf/Werklauf’ (Life Course/Work Course), no entanto não a conseguiu terminar pois foi agredido por uns estudantes. Beuys defendia que devia haver uma abolição de requirimentos de entrada para a sua aula em Düsseldorf, o que viria a motivar a sua demissão em 1972.
Neste periodo de 11 anos Beuys cria inumeras obras como por exemplo: ‘Fat Chair’ (1964-1985) , ‘How To Explain Pictures To A Dead Hare’ (1965) e ‘The Pack’ (1969)
Em ‘Fat Chair’, Beuys utiliza dois materiais do dia-a-dia, a gordura e a madeira em que cria uma escultura que acaba por ser uma metáfora da condição humana. Esta escultura foi colocada dentro de uma caixa de vidro com temperatura controlada num museu onde a gordura, por sua vez, passou por um lento e natural processo de decomposição até se ter decomposto quase totalmente em 1985. Os espetadores ao observar esta obra podiam então visualizar-se no local da gordura, sentados na cadeira, a decomporem-se lentamente, o que acaba por ser o que nos acontece como seres vivos ao longo da nossa vida.
‘How To Explain Pictures To A Dead Hare’ foi uma das ‘Aktions’ mais conhecidas de Beuys. Nesta performance Beuys era observado através de uma janela numa galeria. O artista tinha a cabeça toda coberta com mel e folha de ouro, nos seus braços tinha uma lebre morta a qual sussurrava inaudivelmente explicações de imagens nas paredes, tinha preso a um dos seus sapatos um pedaço de feltro e noutro uma laje de ferro, que quando Beuys se deslocava, acabava por ser a única coisa que produzia som na performance. No meio da galeria encontrava-se um banco de feltro onde o artista se sentava ocasionalmente e um abeto morto. Sobre a obra Beuys disse:
"In putting honey on my head I am clearly doing something that has to do with thinking. Human ability is not to produce honey, but to think, to produce ideas. In this way the deathlike character of thinking becomes lifelike again. For honey is undoubtedly a living substance. Human thinking can be lively too. But it can also be intellectualized to a deadly degree, and remain dead, and express its deadliness in, say, the political or pedagogic fields. "Gold and honey indicate a transformation of the head, and therefore, naturally and logically, the brain and our understanding of thought, consciousness and all the other levels necessary to explain pictures to a hare: the warm stool insulated with felt…and the iron sole with the magnet. I had to walk on this sole when I carried the hare round from picture to picture, so along with the strange limp came the clank of iron on the hard stone floor—that was all that broke the silence, since my explanations were mute… "This seems to have been the action that most captured people's imaginations. On one level this must be because everyone consciously or unconsciously recognizes the problem of explaining things, particularly where art and creative work are concerned, or anything that involves a certain mystery or question. The idea of explaining to an animal conveys a sense of the secrecy of the world and of existence that appeals to the imagination. Then, as I said, even a dead animal preserves more powers of intuition than some human beings with their stubborn rationality. "The problem lies in the word 'understanding' and its many levels which cannot be restricted to rational analysis. Imagination, inspiration, and longing all lead people to sense that these other levels also play a part in understanding. This must be the root of reactions to this action, and is why my technique has been to try and seek out the energy points in the human power field, rather than demanding specific knowledge or reactions on the part of the public. I try to bring to light the complexity of creative areas."
Todos estes objetos e adereços utilizados acabavam por ter um significado tanto como literal como um possível significado simbólico tais como: mel-vida, ouro-riqueza, lebre-morte, feltro-proteção, metal-condutor de energias no visíveis, e por aí adiante. Se bem que esta é uma das possíveis interpretações. É claramente visível o gosto de Beuys pela mitologia e contos nórdico com a utilização do abeto e da lebre morta. Esta obra a acaba por ter um grande sucesso nos media e acaba por intrigar o público o que acabava por ser o objetivo dele, que era que a imaginação das pessoas fosse estimuladas, que o ‘mistério e o questionamento’ substituíssem o racionalismo.
‘The Pack’ acaba por ser quase como um autorretrato de Beuys que mais representa a história do seu salvamento pela tribo nómada tártara. Esta obra é constituída por uma carrinha Volkswagen com vários trenós presos a ela, cada um deste trenós continha uma pequena quantidade de gordura e um pedaço de feltro.
Conseguimos então perceber que toda a obra de Beuys, acaba por ter sempre um grande carácter simbólico que pode ter diversas interpretações e que acaba por criar uma aura de mistério e fantasia à volta de todos os trabalhos. Isto acaba por ser um dos maiores objetivos na arte de Beuys, incentivar o questionamento e o mistério como método de cura social. O ‘xamanismo’ de Beuys consistia em utilizar a sua arte com propriedades psicoanaliticas e ‘xamânicas’ como método de educação e terapêutico.
Entre 1974 e 1986 é quando Beuys acaba por adquirir sucesso internacional com a sua performance em Nova York ‘I Like America and America Likes Me’ (1974). Beuys, nesta performance, sai do avião coberto em feltro e é colocado numa maca e posto numa ambulância que o leva até à ‘René Block Gallery’. Passa então 3 dias dentro de uma jaula com o coiote selvagem e com apenas a sua bengala e feltro. Ao final desses 3 dias os dois acabam por criar uma relação de respeito ao qual Beuys já o abraçava. Quando acabaram estes 3 dias, Beuys evolve-se outra vez em feltro, foi colocado na ambulância e levado de avião de volta para a Alemanha. Beuys disse:
“I wanted to isolate myself, insulate myself, see nothing of America other than the coyote.”
Em 1974, Joseph Beuys viria a dizer uma das suas mais famosas frases ‘Everyone is an artist’
Em 1980, Beuys cria o Partido dos Verdes Alemão com outras pessoas. E no mesmo ano cria a sua obra demaiores dimensões, ‘7000 Oaks’ . Esta ‘social sculpture’ consistiu na plantação de 7000 carvalhos, em Kessel, trabalho feito por Beuys e um grupo de voluntários. Junto de cada árvore foi colocada uma grande pedra de basalto como critica à urbanização excessiva que estava a existir na altura. Esta obra acaba por fundamentar o conceito de social sculpture de Beuys e de que todas as pessoas são artistas. Através de uma boa ação (plantação e reflorestamento) pessoas comuns (voluntários que auxiliaram Beuys), criaram uma obra de arte que ajuda o meio ambiente, os humanos os animais e o mundo no geral.
Joseph Beuys acaba por morrer em 1986 em Düsseldorf vitima de uma paragem cardíaca.
Beuys foi então um dos artistas mais importantes da 2ª metade do século 20 e que acaba só por ganhar uma grande fama após a sua morte. A sua arte tem uma grande influencia na mitologia nórdica e na sua experiencia traumatica durante a 2ª Grande Guerra. Tem quase sempre associado à sua arte uma certa misteriosidade e múltiplas interpretações. Cria também o conceito de ‘social sculpture’ que como já foi referido previamente, consiste na criação de obras de arte que curam a humanidade e o ambiente.