Introdução
Até meados do final da primeira década de 2000 o setor farmacêutico era considerado dos negócios mais rentáveis e seguros, onde a concorrência era fraca e o poder sobre os clientes/utentes era elevada.
Esta situação viria a mudar com a crise Económica em 2008 e a intervenção do Estado na Legislação que rege as Farmácias. A situação mudou radicalmente, levando as farmácias a passar dificuldades financeiras como nunca tinha acontecido.
Devido a este cenário negro que afetou profundamente o negócio das farmácias, eram necessárias alterações no “modus operandi” para que o negócio se tornasse novamente sustentável a longo prazo. É neste contexto de crise que começam a surgir as primeiras “parcerias” entre farmácias com o objetivo de centralizar as compras, de forma a tentar obter maiores descontos na compra.
Com a evolução desta nova tendência começaram a surgir as redes/grupos de farmácias, mas não como os conhecemos hoje…ainda de uma forma muito embrionária. O conceito de Grupo que começou com o objetivo de obter melhores margens às farmácias através de compras centralizadas evoluiu, as estruturas tornaram-se mais organizadas, complexas e com novos serviços disponíveis para as farmácias.
Objetivos do Estudo
Desta forma, o objetivo deste estudo é compreender os principais acontecimentos que ameaçaram profundamente o negócio das farmácias, bem como compreender como a evolução do Mercado Farmacêutico tem vindo a criar esta tendência de “agrupamento” nas farmácias e os seus impactos positivos e negativos nos outros players do Mercado.
Os objetivos parcelares ao longo do Projeto serão:
– Compreender como surgiram os Grupos de Farmácias
– Identificação dos principais grupos de farmácia em Portugal
– Identificação das vantagens e desvantagens de Pertencer a um Grupo/Ser farmácia Independente
-Consequências na gestão de uma farmácia por pertencer a um Grupo
– Como sobrevivem as farmácias independentes no mercado de hoje
– Análise sobre o surgimento de novos Players no Mercado devido a estas alterações
– Mapear do Caminho Logístico desde o Laboratório Farmacêutico até à Farmácia.
– Análise da Cadeia de Abastecimento da Indústria Farmacêutica
Estrutura
O estudo estará dividido em X capítulos sendo a sua estrutura a seguinte:
• 1º capítulo – É feita uma breve introdução ao projeto, onde é exposta de forma sucinta a situação económica das farmácias e posteriormente são definidos os objetivos do projeto;
• 2º capítulo – Neste capítulo consta a revisão de literatura; e apresentada a metodologia utilizada no processo de investigação.
• 3º capítulo – É apresentada a metodologia Global do Projeto, identificadas as ferramentas de recolha, tratamento e análise dos dados.
• 4º capítulo – no capítulo 4 será desenvolvido este estudo exploratório, que se dividirá em 6 secções. Primeiramente será feita uma análise ao Macro ao Mercado da Indústria farmacêutica e ao seu desenvolvimento DESDE ATÉ;
Na segunda secção será feita uma demonstração da Cadeia de Abastecimento da Indústria farmacêutica, bem como as dinâmicas entre os diferentes “players”; ao longo da 3º secção será demonstrado como se organizam os grupos/redes de farmácias nos dias de hoje; 4ª secção será feita uma análise de como as Farmácias Independentes enfrentam as adversidades do mercado atual; na 4ª secção será feita uma comparação entre farmácias que pertencem a grupos VS independentes, será feita uma análise face às vantagens/desvantagens de cada situação.
• 5º capítulo – como último capítulo temos as conclusões, onde serão expostas as limitações dos resultados e possíveis investigações futuras.
Revisão da Literatura
Ao longo da Revisão da Literatura será feita uma análise ao Estado da arte do conceito de Cadeia de Abastecimento, que se encontra diretamente relacionado com o projeto.
CADEIA DE ABASTECIMENTO
Gestão da Cadeia de Abastecimento
A gestão da cadeia de abastecimento tem vindo a tornar-se dos aspetos mais importantes em qualquer negócio principalmente devido à globalização da economia e às alterações rápidas do comportamento dos mercados. Esta está presente em qualquer organização, mesmo que quem gira o negócio ainda não tenha reparado.
Segundo Christopher (1992), a Gestão da Cadeia de Abastecimento define-se como a gestão das relações a montante e a jusante com os fornecedores e os clientes para entregar valor superior ao cliente final a um custo menor para toda a Cadeia de Abastecimento.
IMAGEM
Uma boa gestão da Cadeia de Abastecimento permite maior visibilidade ao longo de toda a cadeia Logística, encurtar a cadeia de abastecimento, bem como alinhar melhor a produção com a procura.
RV – CA, na perspetiva farmacêutica, desafios, visibilidade, stocks + atras ou + a frente, necessidade de transmissão de informação ao longo da cadeia
Metodologia estudo da indústria, 4 níveis
Neste projeto a metodologia utilizada foi é o estudo do caso. (Yin, 2009). Este método, segundo Yin, deve ser utilizado em situações que o conhecimento sobre um determinado fenómeno é limitado ou quando as teorias para a explicação de um fenómeno não estão bem definidas. Para se poder aplicar esta metodologia os dados deverão ser recolhidos em múltiplas fontes, deverá tratar-se de um evento contemporâneo e a questão de investigação deverá ser do tipo “porquê” ou “como” (Benbasat, 1987).
Nesta situação, tratando-se de um estudo cujo objetivo é compreender as dificuldades que as farmácias têm enfrentado e o motivo que as tem levado a formar grupos, faz todo o sentido a aplicação deste método porque recai sobre um tema cuja informação é bastante limitada e trata-se de uma situação atual.
Como método de recolha de informação foi utilizada uma abordagem qualitativa. Esta teve como foco entrevistas, observação direta e documentos.
Trata-se do estudo de um caso cujo objetivo tem tanto de exploratório, por explorar um problema pouco conhecido, como de explanatório por possuir o intuito de explicar relações de causa e efeito a partir de uma teoria.
Etapas
O estudo encontra-se dividido em 5 partes principais, como demonstra a seguinte figura:
Metodologia- definir quais foram os instrumentos de recolha de dados, documentos, entrevistas a 4 níveis na cadeia, durante quanto tempo demoravam as entrevistas, quantas entrevistas, como vou tratar os dados, comparação entre cronograma original e o que aconteceu na verdade
Processos de recolha de informação
Respeitando a metodologia Estudo do Caso, foram recolhidas informações de várias fontes em forma de entrevistas, entre 7/05/2018 e 07/06/2018. Estas tiveram como base 4 guiões de entrevista diferentes, sendo cada um deles focado para um determinado elo da CA da Indústria Farmacêutica. Assim sendo, os inquiridos foram 1 laboratório farmacêutico, 2 Armazenistas, 3 grupos de farmácias e um total de 31 farmácias. Em média as entrevistas duraram cerca de 45 minutos, sendo que grande parte foram gravadas via áudio. Os guiões acima referidos constam em anexo como Documento X X X X X.
Yin (2009) defende o a recolha de dados através de uma observação interativa, onde o investigador pode participar em eventos que estão a ser estudados. No seguimento da linha de pensamento de Yin, ao longo do estudo foram visitados 2 armazéns e várias farmácias. Nestas visitas foi possível observar receção de medicamentos, embalamento, picking, expedição – no que diz respeito ao armazém – e como funciona o “backstage” das farmácias no que toca à gestão do espaço, muitas vezes reduzido, e aviamento de produtos farmacêuticos.
Por fim, foram também obtidas informações através de documentos já existentes, como artigos, notícias, bem como alguns dados que foram facultados diretamente pelo Carlos Gomes, Diretor Comercial da Alliance Healthcare.
Análise dos Dados
De forma a facilitar o tratamento das informações obtidas em várias fontes foi feita uma divisão em 2 partes, primeiramente foi feito um enquadramento do negócio das farmácias com o Mercado e depois foi escrutinado a farmácia como negócio e as suas relações com os restantes “players” da CA.
Para a 1ª parte foram utilizados indicadores do sector farmacêutico, demográficos e económicos, com o objetivo de obter uma perspetiva Macro sobre o Setor Farmacêutico. Em relação às informações obtidas através das entrevistas, foram ouvidos os áudios gravados e estudadas as respostas dadas às questões colocadas de forma a gerar um raciocínio dedutivo. Este raciocínio foi possível porque muitas das técnicas de gestão utilizadas eram partilhadas entre as farmácias ou entre os armazenistas.
O Mercado das Farmácias em Portugal
Como referido anteriormente, o setor das farmácias em Portugal sofreu profundas alterações na última década.
Ao longo deste capítulo será feita uma introdução ao mercado das farmácias em Portugal, analisando a sua evolução desde 2007 até aos dias de hoje, de forma a expor as principais alterações neste mercado.
O Mercado até 2007
Até 2007 o mercado das farmácias encontrava-se bastante protegido pela Legislação. Apesar de na altura ser um setor bastante rentável, era bastante complicado iniciar negócio nesta área.
As principais legislações impostas pelo Governo nessa altura incidiam sobre:
– Restrições à entrada;
-Mão de Obra Qualificada;
-Regulação dos preços de Medicamentos sujeitos a receita médica (MSRM);
-Comparticipação no custo dos medicamentos pelo Estado;
Restrições à Entrada
Desde 1965, com a implementação do DL 2125/1965, que se tornou bastante complicado entrar no mercado das farmácias em Portugal.
Segundo este decreto, para se iniciar atividade neste sector é necessário requerer um alvará à Direção Geral de Saúde. Para além de ter que requerer o alvará acima mencionado, o acesso ao mercado era reservado único e exclusivamente a farmacêuticos, ou seja, o proprietário da farmácia teria que ser formado academicamente. Numa fase final, caso se conseguisse o alvará, o farmacêutico estava autorizado a abrir apenas uma farmácia em seu nome.
Com a implementação desta lei a entrada no Mercado das Farmácias passou a depender da decisão do Estado. Desta forma, o Governo até 2007 possuiu um grande controlo sobre o número de farmácias que existiam em território nacional, havendo pouca variação no número de estabelecimentos abertos entre esse período.