As rela”es de cr”ditos entre diferentes atores sociais se d”o, via de regra, por meio de trocas econ”micas ‘ adquirisse um bem com a promessa de pagamento em um futuro pr”ximo, pega-se um valor emprestado para abertura de um neg”cio com a esperan”a de que esse investimento trar” retorno o suficiente para satisfazer a d”vida e gerar lucro. Os motivos espec”ficos que fazem com que as pessoas se envolvam em uma opera”o de cr”ditos s”o muitos, mas h” por tr”s de cada opera”o sempre alguns denominadores comuns: a necessidade de utiliza”o imediata de um dinheiro ou bem que n”o se tem, a exist”ncia de um agente com disponibilidade em ceder essa quantia em dinheiro ou bem e o poder de se transmitir a esse agente a capacidade futura de produ”o de capital suficiente para ressarcir o dinheiro ou bem que se vai adquirir. Desse modo, uma opera”o de cr”dito tem quase sempre duas vari”veis ‘ uma econ”mica e financeira e outra social e cultural. O que faz com que tenhamos que ver o cr”dito n”o apenas como uma ferramenta facilitadora de acesso ao mercado de bens e servi”os, mas tamb”m como um fen”meno fortemente mediado por rela”es pessoais e umbilicalmente ligado a no”es como reputa”o e confian”a.
Voltemos ao exemplo de Jos”, descrito no in”cio do cap”tulo. Quando ele precisou da consider”vel quantia de 8:500$000 para retornar ” A”ores, Jos” recorreu ao negociante Jo”o, a quem ele ‘conhecia e sabia ter disponibilidade e condi”es de lhe efetuar um empr”stimo’26 e ” quem Jos” certamente acreditava ter conseguido transmitir sinais suficientes de que seria capaz de honrar aquele compromisso. Em muitos casos, a concess”o de cr”dito ocorria em uma rela”o que era basicamente de confian”a m”tua entre as partes. O credor necessitava ter plena confian”a na capacidade de pagamento do devedor e este por sua vez deveria saber sobre a capacidade do credor de contar com fundos suficientes para um empr”stimo e a propens”o de ced”-los. Tal confian”a adivinha muitas vezes de rela”es pr”vias de amizade ou la”os familiares. A proximidade e conhecimento m”tuo seria tamb”m um indicativo de que as partes estariam bem informadas uma sobre a outra, algo que certamente ajudava a mitigar um dos maiores riscos associados a um empr”stimo ‘ a falta de informa”o sobre a real solv”ncia de um prospectivo devedor.
Na aus”ncia de v”nculos pessoais, a reputa”o costumava ser a definidora de acesso ao cr”dito. A reputa”o de um indiv”duo ou de um domic”lio e mesmo sua capacidade de honrar uma d”vida se assentavam em bases por vezes bastante fr”geis e estavam, desta forma, sujeitas a constante negocia”o ‘ as diversas a”es de lit”gio nas varas c”veis e comercias da cidade do Rio de Janeiro s”o um exemplo concreto desta fragilidade. Quando a confian”a era quebrada e se exauriam as possibilidades de acordo, o judici”rio era instado a mediar o conflito ‘ a confian”a no sistema judici”rio como mediador eficiente ” uma das pe”as fundamentais para o bom funcionamento de qualquer mercado de cr”dito e voltaremos a esse assunto mais adiante.
Perspectivas de an”lise preocupadas em ver o cr”dito para al”m de suas implica”es econ”micas t”m sido o ponto de partida de trabalhos a respeito das rela”es de cr”dito no outro lado do Atl”ntico. Importante neste sentido s”o as obras de Craig Muldrew e Margot Finn.27 Muldrew concentra sua an”lise na prov”ncia de King's Lynn, na Inglaterra, em fins do s”culo XVI e demonstra que a estrutura de cr”dito no per”odo foi baseada em rela”es de confian”a entre indiv”duos com liga”es m”tuas e interpessoais que se davam no seio de pequenas comunidades ‘ Muldrew demonstra que foram rela”es sociais e culturais, mais do que quest”es meramente econ”micas, as norteadoras daquelas rela”es credit”cias. O mercado de cr”dito era o resultado de in”meras liga”es mutuas de obriga”o que uniam as fam”lias de King's Lynn entre si, criando complexas redes de depend”ncia econ”micas e sociais. Segundo o autor, quase todas as unidades familiares de King’s Lynn estiveram representadas pelo menos uma vez em processos de lit”gio28. A confian”a era pe”a central na cria”o e manuten”o dessas obriga”es ‘ o cr”dito era definido em termos muito mais sociais e culturais do que econ”micos. Segundo Muldrew, era a reputa”o de credor justo e devedor honesto a principal moeda de troca que um indiv”duo e, principalmente, uma fam”lia (household) possu”am neste mercado.
Para o autor, num sistema de cr”dito que se baseava preferencialmente nas no”es de confian”a e obriga”o, os indiv”duos n”o eram motivados por c”lculos racionais que visavam apenas o lucro, eram, pelo contr”rio, movidos pelo desejo e mesmo a necessidade de manter vivos os la”os de interdepend”ncia ‘ era do interesse de toda a comunidade garantir de que seus membros mantivessem rela”es de cr”dito saud”veis, uma vez que a quebra de um indiv”duo ou fam”lia poderia gerar um efeito cascata, pondo em risco a manuten”o daquele sistema de cr”dito como um todo. Os indiv”duos em King's Lynn empreendiam suas trocas no mercado de cr”dito local tendo por base uma linguagem que dava ”nfase as rela”es sociais de confian”a e obriga”o. Para garantir o acesso ao cr”dito eram mais importantes as quest”es de ordem moral do que as econ”micas, parafraseando Muldrew ‘ o que mais importava n”o era o sujeito em sua individualidade, mas sim a percep”o p”blica desse sujeito em rela”o as virtudes pessoais e familiares da ”poca.29
Quando lidamos com as finan”as e as rela”es econ”micas entre indiv”duos no passado, n”o ” incomum que nos deparemos com o emprego de estrat”gias inusitadas e a primeira vista contradit”rias ‘ por desvirtuarem da sempre esperada l”gica de maximiza”o dos lucros. Singular nesse sentido ” o estudo de Giovanni Levi sobre o vilarejo de Santena, no Piemonte italiano do s”culo XVII.30 Ao estudar o mercado local de terras, Levi demonstra como a composi”o dos pre”os nesse mercado tinha uma rela”o direta com os graus de parentesco e compadrio gestados no seio da comunidade, mas esses pre”os seguiram uma tend”ncia que subvertia a l”gica esperada para transa”es entre parentes e amigos: quanto mais pr”ximo a grau de parentesco e afinidade, mais altos eram os pre”os. Segundo o autor, isso ocorria por essa venda era, geralmente, a ”ltima etapa de uma longa rela”o de endividamento entre as partes. Muita vezes o ato da venda de um terreno, apesar de precificada, sequer era seguido de um troca monet”ria. Quando a venda se dava entre indiv”duos com la”os de reciprocidade menos estreitos, uma l”gica impessoal de mercado se tornava mais n”tida na precifica”o da terra e elementos como oferta e demanda passavam a ter maior relev”ncia.31
Levi demonstra como os pre”os em si, e mesmo as partes envolvidas na negocia”o, tiveram import”ncia apenas relativa naquele mercado. Para o autor, o mais relevante em an”lises dessa natureza ” identificar os elementos por tr”s da composi”o desses pre”os. Visto de perto, o mercado de terrenos na aldeia de Santena, mesmo apresentando uma alta circula”o das terras e presen”a de moeda, n”o esteve marcado por uma l”gica impessoal de maximiza”o de lucros. ‘Na verdade, a comunidade de Santena parece ter sido protagonista de uma estrat”gia ativa de prote”o contra a incerteza que a ampla imprevisibilidade do ciclo agr”rio e a dificuldade de controle do mundo pol”tico e social criaram continuamente.’32 Desse modo, Levi procura entender as rela”es econ”micas de um ponto de vista relacional e social, privilegiando uma an”lise preocupada em entender como aqueles indiv”duos elaboraram diferentes estrat”gias frente as crescentes incertezas quanto ao futuro, conforme entravam em um mundo que deixava para tr”s l”gicas de antigo regime, em dire”o a um onde ‘as concorr”ncias entre indiv”duos ou grupos foi abertamente aceita como ”tica e t”cnica econ”mica.’33
Mais do que uma atitude conservadora de volta ao passado ou uma luta desenfreada e individual por enriquecimento, o que Levi percebe na atua”o pol”tica e econ”mica dos camponeses no Piemonte ” uma estrat”gia deliberada ‘para criar institui”es, estruturas e situa”es de controle do mundo natural e social’34 que se transformava de forma aguda e cont”nua. Apesar das ”bvias diferen”as com o contexto aqui analisado, ” ineg”vel que o oitocentos carioca tamb”m foi marcado por intensas e abruptas mudan”as, tanto no campo pol”tico como no econ”mico, o que torna as observa”es de Levi pertinentes ” nossa pesquisa.
Muldrew, por sua vez, v” esse sistema baseado em rela”es interpessoais ruindo ao longo do s”culo XVIII. Para o autor, a ‘tica social’ das rela”es de cr”dito perdurou entre os anos de 1520 at” 1720, depois disso, a din”mica de rela”es pessoais e de obriga”o m”tua deram lugar a rela”es de cr”dito cada vez mais baseadas na racionalidade do lucro ‘ o mercado de cr”dito passaria a se orientar mais por quest”es econ”micas e pela troca de informa”es. Sintom”tico nesse sentido teria sido o crescente surgimento de ag”ncias de cr”dito, companhias de seguro e bancos a partir de meados do s”culo XVIII.
Margot Finn, por sua vez, relativiza um pouco as conclus”es de Muldrew. Ao analisar o cr”dito na Inglaterra durante o ‘longo s”culo XIX,’ a autora demonstra que ” poss”vel se observar uma grande persist”ncia no car”ter social do cr”dito mesmo quando passaram a prevalecer rela”es econ”micas tidas como modernas e sua an”lise procura matizar os efeitos da ‘grande transforma”o’ observada por Muldrew a partir de meados do XVIII.35 Para Finn, o cr”dito seguiu sendo determinado e constru”do a partir de rela”es pessoais e sociais. Quest”es como g”nero, origem ”tnica e status social continuaram a influenciar as possibilidades de acesso ao cr”dito, mesmo em fins do XIX. Para a autora, ” preciso ter cautela no descarte absoluto das rela”es interpessoais e sociais em favor de uma l”gica puramente econ”mica e racional ‘ segundo Finn, ao longo de todo s”culo XIX, as pessoas seguiram apresentando, inclusive, pouca familiaridade com o papel-moeda e c”lculos monet”rios.36 Este ”ltimo ponto, como veremos, parece n”o se aplicar para nosso contexto, as fontes fornecem uma s”rie de ind”cios de os trabalhadores urbanos cariocas tinham consider”vel familiaridade com papel-moeda, c”lculos monet”rios e as diferentes opera”es de cr”dito e mostram igualmente, que eles eram bastante ciosos de seus neg”cios e investimentos e recorriam constantemente a justi”a para fazer valer seus direitos enquanto credores,37 o que, de todo modo, n”o faz com que desconsideremos a tese da autora.
Vale ressaltar, no entanto, que Margot Finn chega a suas conclus”es a partir de fontes completamente diferentes daquelas usadas por Muldrew. Enquanto a autora se baseia majoritariamente nas representa”es do cr”dito na literatura inglesa dos s”culos XVIII e XIX, al”m de di”rios e mem”rias, Muldrew tem como principal corpo documental os processos de lit”gio. Deste modo, ” poss”vel argumentarmos que Finn acaba por demonstrar as percep”es e ideias a respeito do cr”dito de um grupo muito mais limitado do que aquele analisado por Muldrew, uma vez que as fontes liter”rias usadas pela autora costumam descrever os comportamentos da parcela letrada da popula”o ou as percep”es que elas tinha sobre o comportamento das camadas populares. Mesmo assim, tendo a concordar com Finn ‘ a virada do s”culo XVIII para o XIX n”o parece der dado conta de retirar das rela”es de cr”dito seu car”ter social e cultural.
Mesmo estando de acordo com Finn e Levi, h” que se levar em considera”o que uma argumenta”o em favor da manuten”o dos la”os interpessoais nas rela”es de cr”dito ao longo do s”culo XIX, n”o significa o mesmo que dizer que o cr”dito n”o poderia transcorrer por meio de rela”es impessoais e baseadas em c”lculos econ”micos visando a obten”o de lucro. Rela”es sociais e l”gica de mercado n”o s”o conceitos autoexcludentes e foram capazes de conviver em paradoxal harmonia dentro de uma mesma sociedade.
Conv”m ressaltar tamb”m, que, historicamente, as negocia”es no mercado sempre implicaram a utiliza”o de algum tipo de c”lculo econ”mico, de modo que a presen”a de uma racionalidade econ”mica n”o deve ser vista como sin”nimo de capitalismo, um fen”meno, em si, muito mais complexo.38 No entanto, ” ineg”vel que, ao longo do s”culo XIX, a cidade do Rio de Janeiro passou por uma s”rie de transforma”es e nossos personagens precisaram processar c”lculos econ”micos cada vez mais intrincados e que se aproximaram muito daquilo que poder”amos chamar de uma l”gica capitalista.
De qualquer modo, essa nova complexidade n”o parece ter dado conta de reformular completamente os comportamentos dentro desse mercado, que aparenta ter sido marcado por uma constante intera”o entre l”gicas e hierarquias t”picas de sociedades de antigo regime com ideias e pr”ticas geralmente ligadas a contextos onde imperaram din”micas mais fortemente associadas ao capitalismo. Em momento algum durante o contexto aqui analisado uma dessas l”gicas chegou a ser hegem”nica. A dualidade parece ter sido a marca do oitocentos nacional: l”gicas de antigo regime versus capitalismo, escravid”o versus trabalho livre ‘ somos marcados por estas dualidades conflitantes que desafiam qualquer tentativa de conceitua”o muito r”gida, mas foi em meio a essas ambiguidades que os homens e mulheres do s”culo XIX precisaram navegar, e o fizeram, por vezes, com surpreendente desenvoltura, at” porque, suas realidades cotidianas assim deles exigiam.
Mesmo com a experi”ncia colonial ainda bastante viva, ” poss”vel identificarmos comportamentos que seriam tidos como norma em uma sociedade ‘capitalista’ mais desenvolvida. Peguemos como exemplo alguns an”ncios do Di”rio do Rio de Janeiro da d”cada de 1820: ‘Precisa-se de 240$000 por 6 meses a premio de hum e meio por cento, pois da-se um pr”dio para seguran”a do mesmo, quem quiser entrar neste neg”cio, anuncie neste di”rio para ser procurado.’39 e, ‘Precisa-se de 800$000 reis por um ano a premio, e querendo receber o premio mensal em capim, paga-se 2%, hipotecando-se uma ch”cara no valor de 10 mil cruzados, quem quiser procure em frente a S. Francisco de Paula, 1’40. N”o podemos afirmar com certeza, mas ” poss”vel que a aus”ncia de algum parente ou amigo com capital dispon”vel para o empr”stimo tenha feito com que os anunciantes recorressem a desconhecidos em busca de recursos, de todo modo, o que fica evidente ” que, mesmo nas primeiras d”cadas do s”culo XIX, o mercado de cr”dito n”o se dava com base apenas em rela”es pessoais.41
Esta afirma”o ganha ainda mais evid”ncia quando nos deparamos com uma nota no Di”rio do Rio de Janeiro de 06 de fevereiro de 1822, que pede para ‘quem tiver achado uma carteira de marroquim verde, onde tem uma letra de c”mbio de 20$000, aceita pela Excelent”ssima condessa da Ponte’ que a entregasse na loja de quinquilharias francesas, localizada na Rua da Ajuda n”mero 159. O autor da nota ainda alertava aos leitores que todas as provid”ncias j” haviam sido tomadas para que a letra n”o fosse paga ao portador.42 Assim como este, diversos outros an”ncios semelhantes podem ser encontrados nos jornais cariocas ao longo do per”odo analisado, dificilmente possava um dia sem que algu”m anunciasse o extravio de alguma letra ou t”tulo de cr”dito. Esses dados s”o um ind”cio de que, mesmo no per”odo joanino, a circula”o de cr”dito foi intensa e que era relativamente f”cil de se negociar com letras e t”tulos de cr”dito ao portador. Como veremos mais adiante, as letras foram uma modalidade de cr”dito bastante utilizada no mercado carioca e uma de suas principais caracter”sticas foi justamente sua impessoalidade, algo que era inclusive, exigido por lei, j” que a letra, uma vez emitida, deixava de ter qualquer rela”o formal com o neg”cio que a originou e podia, inclusive, ser negociados livremente pela pra”a.43 Nada disso, no entanto, fez com que o anunciante deixasse de prestar a devida rever”ncia a uma pessoa na posi”o da Excelent”ssima Condessa da Ponte ao mesmo tempo em aproveitava para alertar ao portador sobre a origem nobre da letra.
Se olharmos novamente para experi”ncias em mercados de cr”ditos em outras paragens, veremos estudos que corroboram a hip”tese aqui aventada. Ao contr”rio do que afirmava parte da historiografia sobre economias no passado, pr”ticas impessoais de cr”dito n”o s”o necessariamente um fen”meno que surgiu ap”s Revolu”o Industrial e o consequente desenvolvimento de economias capitalistas a ela associadas. Singular nesse sentido ” o estudo sobre o mercado de cr”dito parisiense entre 1660 a 1870, realizado por Philip Hoffman, Gilles Postel-Vinay e Jean-Laurent Rosenthal. Ao analisar mais de 400 mil registro notariais de cr”dito, mesmo durante o Ancien R”gime, antes de Paris apresentar um sistema banc”rio moderno, mercado de a”es ou qualquer outro sinal evidente de uma ‘transi”o capitalista,’ os autores demonstraram que os not”rios p”blicos parisienses funcionaram como uma esp”cie de intermedi”rios do cr”dito, pondo em contato indiv”duos dispostos a emprestar seus capitais excedentes a desconhecidos que possu”ssem o hist”rico de serem devedores confi”veis.
Os registro notariais franceses mostram que, por mais de dois s”culos, os not”rios, por possu”rem informa”es privilegiadas a respeito de quem tinha dinheiro para emprestar e quem necessitava desse dinheiro, intermediaram milhares de empr”stimos que, apesar de privados, foram efetuados, muitas vezes, entre pessoas que n”o se conheciam. Esses registros apontam para a composi”o e funcionamento de um mercado de cr”dito muito mais moderno do que se supunha existir no per”odo.44
Segundo os autores, n”o devemos partir do princ”pio de que existe uma marcante diferen”a entre economias pr”-capitalista (ou em fase de transi”o ao capitalismo) ”s economias capitalistas que se consolidaram ap”s a Revolu”o Industrial, pelo menos n”o sem s”lidas evid”ncias emp”ricas. Essa perspectiva acaba, na vis”o desses autores, ‘simplesmente obscurecendo o funcionamento de economias pr”-industriais ao considerar os comportamentos econ”micos do passado (ou nos pa”ses em desenvolvimento) como sendo muito mais estranhos do que eles realmente foram.’45 Essas afirma”es s”o feitas em oposi”o a uma historiografia que costuma partir do princ”pio de que, ‘Antes da Revolu”o Industrial ‘ e em pa”ses em desenvolvimento, antes do moderno crescimento econ”mico ‘ as trocas financeiras eram geralmente privadas e os empr”stimos foram, consequentemente, limitados. A escassez de cr”dito estrangulava a economia, j” que, sem meios para que os empreendedores tivessem acesso a empr”stimos, os investimentos estagnavam, eliminando qualquer chance de crescimento econ”mico’, perspectiva da qual Hoffman, Postel-Vinay e Rosenthal, claramente discordam.46 Outros estudos t”m demonstrado, inclusive, que essa conhecida trajet”ria explicativa n”o serve como exemplar nem mesmo para a Europa ocidental ou para a Inglaterra, ber”os da revolu”o Industrial e financeira.47
Mesmo concordando com os autores franceses, as evid”ncias emp”ricas dispon”veis para o estudo do mercado de cr”dito carioca apontam novamente para a j” mencionada manuten”o de la”os pessoais e hier”rquicos dentro de um contexto onde, cada vez mais, passavam a imperar l”gicas capitalistas de mercado. Tomemos como exemplo um outro an”ncio, tamb”m do ano de 1822, onde fica ainda mais evidente a conviv”ncia simult”nea de rela”es pessoais com pr”ticas ‘capitalistas’. No dia 10 de setembro de 1822, Thomaz Soares de Andrade publicou uma nota no Di”rio do Rio de Janeiro em reposta ao an”ncio feito por um Sr. Manygnard, onde este ”ltimo dizia ser Thomaz seu devedor em dois e tantos contos de r”is, o que segundo Thomaz era ‘falso pois nunca teve contas algumas com ele, e s” sim houve uma letra de 690 e tantos mil r”is e por mim aceita de favor ao seu Sogro Estev”o Locatelli, e foi paga no dia do seu vencimento pelo falecido e cuja quantia mostro por documentos em ju”zo que foi dinheiro para uso particular do seu dito sogro ‘ Assinado: Thomaz Soares de Andrade’.48
As letras e t”tulos de cr”ditos que sobreviveram nos registros dos of”cios de nota da cidade do Rio de Janeiro n”o costumam trazer informa”es detalhadas a respeito do tipo de rela”o existente entre credores e devedores, menos ainda sobre a origem e destino dos valores que por meio delas circularam. Assim como ocorreu no mercado de terras em Santena, acreditamos que essas letras de cr”dito devem ser vistas para al”m de seu ‘valor de face’. Se decid”ssemos buscar o registro da letra sacada por Locatelli e aceita por Thomaz (at” o momento n”o foi poss”vel localiza-la), ter”amos pouco mais do que uma simples e corriqueira opera”o financeira, como veremos mais adiante, as letras s”o bastante sucintas quantos aos termos da negocia”o e s”o marcadas por r”gida formalidade, seguindo sempre um texto padr”o, o que era necess”rio, inclusive, para que elas tivessem valor legal. Uma an”lise meramente quantitativa dessas letras certamente atestaria para uma intensa e impessoal circula”o de cr”dito pela pra”a do Rio de Janeiro, circula”o essa que seria marcada por instrumentos legais e formais cada vez mais rigorosos ‘ fen”menos t”picos de sociedades capitalistas ‘ mas que podiam muito bem esconder um ‘favor’ feito a um amigo ou um parente, como parece ter ocorrido no caso de Thomaz e o sogro do Sr. Manygnard.
Ao analisar o mercado da moda em Paris durante o auge do antigo regime, Clare Crowston procurou demonstrar como as no”es de cr”dito entre os parisienses podiam se estender para muito al”m do campo das finan”as. Para a autora, ‘cr”dito’ foi um conceito central para os habitantes (com uma marcante presen”a feminina nesse mercado) da Paris do antigo regime ‘ no”es como reputa”o e influ”ncia operavam informalmente na pol”tica, na vida social, religiosa e na produ”o cultural.49 Al”m do dinheiro, o mercado de cr”dito parisiense negociava tamb”m o empr”stimo de influ”ncia social e reputa”o, ‘mercadorias’ que tinham um peso (micro)econ”mico relevante, por”m dif”cil de ser calculado.
As observa”es de autores como Crowston e Levi apontam para uma quest”o que nos parece fulcral: como ” poss”vel ao historiador quantificar o peso de uma rela”o social? Qual o seu impacto na composi”o do pre”o das negocia”es de cr”dito que analisaremos? Esse talvez seja um dos principais problemas em an”lises que se preocupam em compreender os comportamentos econ”micos no passado ‘ como fazer para que a an”lise se estenda para al”m dos n”meros?
Essa ” uma quest”o que v”m recebendo aten”o de alguns estudiosos da hist”ria econ”mica, que procurado um di”logo cada vez mais pr”ximo entre economia e cultura.50 Os debates em torno de conceitos como ‘economy of regard’, elaborado por Avner Offer, s”o um bom exemplo nesse sentido.51 O autor procura demonstrar como as trocas econ”micas podem se basear n”o apenas em uma l”gica de maximiza”o do lucro, mas tamb”m em uma din”mica de reciprocidade e trocas n”o monet”rias na forma de presentes ou caridade, por exemplo. Segundo Offer, tais trocas t”m uma liga”o direta com quest”es como afeto e considera”o e n”o s”o um fen”meno exclusivo de sociedades pr”-capitalistas, eles persistem at” os dias atuais e nunca deixaram de influenciar e informar o funcionamento dos comportamentos econ”micos, mesmo em economias capitalistas avan”adas. A presen”a dessas din”micas de reciprocidade costuma ser desconsideradas por economistas e historiadores econ”micos, mas segundo Offer, elas podem ter um peso significativo nos processos decis”rios individuais, como por exemplo, decidir emprestar dinheiro a um desconhecido por que este tem fortes la”os de amizade com um parente pr”ximo pelo qual se tem grande considera”o. O problema, claro, est” na dificuldade de se extrair das fontes esse tipo de informa”o, algo que requer um intenso cruzamento de dados e uma alguma sorte.
O que nos parece importante nas observa”es de Offer ” que elas podem ajudar a explicar alguns comportamentos no mercado, como a n”o cobran”a de juros em um empr”stimo, por exemplo, como sendo mais do que simplesmente uma atitude ‘pr”-capitalista’. Isso por que, para Offer, a presen”a dessas din”micas de reciprocidade seriam um constante lembrete de que a grande transforma”o observada por Polanyi no s”culo XVIII ingl”s ‘permanece incompleta’.52
Essa incompletude n”o significa, todavia, que essas transforma”es devam ser desconsideradas. L”gicas de mercado passaram a exercer uma press”o cada vez mais significativa na vida de mulheres, homens e crian”as a partir de fins do s”culo XVIII. Um exemplo disso s”o as reformas legais observadas no Brasil ao longo do s”culo XIX. Embora tenham se tratado de opera”es estatais, essa reformas foram certamente influenciadas por for”as e agentes econ”micos que foram (e ainda o s”o) geralmente reificados pelo conceito de ‘mercado’, que apesar de saudado como detentor de uma l”gica maximizadora e suposta isen”o, nunca deixou de fazer parte do mundo da pol”tica. Como bem nos lembra Fernando Coronil, a separa”o entre mercado e estado ” muito mais discursiva do que real.53 Todavia, ” igualmente ineg”vel a press”o exercida pelas crises c”clicas observadas no ”mbito desse ‘mercado,’ que atingiu integra”o global in”dita no XIX.54
Essa dualidade entre rela”es sociais e de reciprocidade e a presen”a de uma l”gica de mercado se aplicava, ” claro, para muito al”m do cr”dito e pode ser facilmente percebida por exemplo, no mercado de trabalho, que apresentou dualidade semelhante ‘ marcadamente, a presen”a concomitante de rela”es de trabalhado livre e compuls”rio. Recorramos novamente as p”ginas dos jornais cariocas. Nelas, veremos uma s”rie de ind”cios de que o mercado de trabalho na capital do Imp”rio funcionava tamb”m com base em uma esp”cie de ‘economia da considera”o’55 onde, assim como a Paris do Antigo Regime analisada por Crownton, tamb”m aparecem ind”cios de um mercado onde a moeda de troca era a ‘reputa”o’. No Jornal do Commercio de 1831: ‘Um rapaz de Na”o Francesa deseja se arranjar em alguma casa particular e d” fiador de sua conduta (‘)’56; ‘Quem precisar de um caixeiro portugu”s de idade de 18 a 19 anos, para padaria ou outro qualquer neg”cio; dirija-se ao Largo da Cariora n.7, sendo preciso se dar” conhecimento’57 e do mesmo jornal, j” na d”cada de 1880: ‘Precisa-se de um jardineiro habilitado que entenda perfeitamente de floricultura e que d” informa”o sobre sua compet”ncia e moralidade (‘)’58 e ‘Precisa-se de um caixeiro de 14 anos, com pr”tica de secos e molhados, dando fiador de sua conduta’.59
Exemplos como esses t”m recorr”ncia praticamente di”ria nos per”odos cariocas, mas acreditamos que n”o devam ser vistos pura e simplesmente como indicativos da perpetua”o de nossa heran”a colonial e escravagista (argumento que serve muita vezes para explicar um atraso que seria at”vico em nossa sociedade). Mesmo por que, os mesmos peri”dicos trazem in”meros an”ncios de oferta de cr”dito e de trabalhadores que foram veiculadas por ‘casas de comiss”o’ ‘ empresas que, desde de pelo menos 1820, atuaram intermediando neg”cios no mercado imobili”rio, de cr”dito, penhor e de trabalho no Rio de Janeiro. Essas casas de comiss”o tiveram uma estreita liga”o com o mercado de escravos, aluguel de cativos e trabalhadores livres e foram respons”veis por expressiva circula”o de cr”dito no per”odo, fen”meno que apenas recentemente t”m recebido aten”o da historiografia60 e que ser” objeto de an”lise mais adiante.